A Filosofia de Friedrich Nietzsche

Nietzsche: o filósofo da vontade

 

Índice

1 Nietzsche, filósofo da vontade

2 Nietzsche e o niilismo

3 Nietzsche, metafísica e moral

4 Nietzsche e a Vontade de Poder

5 Nietzsche e a Arte: Dionísio e a vida criativa

6 Nietzsche e o sobre-humano

 

1 Nietzsche, filósofo da vontade:

Nietzsche é o filósofo da vontade de poder, concebida como criação e plenitude vital, como afirmação desesperada da vida. O que é essencial é o nosso mundo como alegria e vontade de poder. Quanto à ilusão dos outros mundos, Nietzsche a rastreia em todas as suas formas.

Nietzsche pode ser considerado um filósofo da moral antes de tudo.

É claro que a filosofia de Nietzsche é um dos pensamentos mais complexos. Esta complexidade é ligada tanto à sua escrita poética e de aforismos, quanto à sua recusa em situar-se claramente na tradição filosófica. Indescritíveis, os escritos de Nietzsche se assemelham a montanha, uma lenta progressão.

2 Nietzsche e o niilismo:

Nietzsche diagnosticou a essência da crise mortal de nosso tempo: ele a descreveu, em suas principais características, e de forma quase clínica.

Estudou-o a vários níveis e, ao fazê-lo, muitas vezes anunciou com a maior precisão o que apenas se esboçava no final do século XIX.

Esta doença mortal dos tempos modernos, a nossa, é o niilismo, reino do absurdo, do Nada (“nihil”, como nos diz a etimologia).

Niilismo ou ausência de sentido…

Tornar-se então sem objetivo e todos os ideais tradicionais perdem seu valor.

Mas qual é o cerne desse “Nada” e qual é sua força motriz?

O fenômeno do niilismo é marcado fundamentalmente pela Morte de Deus, o evento recente mais importante. O sol da fé cristã acaba de se pôr. A escuridão é agora o destino do nosso mundo. O Divino, o Supra-sensível, nos deixou: nós o matamos, Nietzsche às vezes nos diz.

Esta morte do Deus cristão, se é também, talvez, o sinal e o anúncio de uma nova aurora, é marcada, em nosso tempo, pela vinda do Último homem, a consumação do niilismo.

O “último homem” designa o que há de mais desprezível neste mundo: aquele que é impotente para criar e amar, o indivíduo totalmente escravizado e desfrutando de uma “felicidade” programada e mesquinha. Ele assim pula na superfície da terra.

3 Nietzsche, metafísica e moral:

Na verdade, o niilismo completa a metafísica e a conclui: é a consequência imediata. Na crise de nosso tempo (no âmago da doença niilista), descobrimos, de fato, os erros da metafísica.

O niilismo representa o signo do “Nada”, do puro Nada:

Significa a revelação do Nada, concebido como o fundamento oculto de nosso mundo.No entanto, ao examinar, descobrimos as origens dessa crise dentro do próprio projeto metafísico:

  • A metafísica, definida como um tipo de pesquisa e abordagem que situa a verdade para além das aparências fenomênicas, em um “outro mundo”, desvaloriza por isso, nosso universo.
  • O fenômeno sensível reduz-se, então, a uma pura aparência, a um invólucro superficial, desliza para o nada e a realidade identifica-se assim com o supersensível.
  •  É por isso que a metafísica deve ser superada: ela nasceu, de fato, do sofrimento do homem e de seu cansaço de viver.

O indivíduo, em sua dor, inventou um outro mundo, estável, permanente, um lugar de verdade. O objeto de estudo da metafísica é o Ser, em si e por si, substância idêntica por meio de mudanças.

Mas, esse ser metafísico é apenas uma ficção. Ele apenas responde à necessidade de estabilidade daqueles a quem Nietzsche batiza de “alucinações do outro mundo” (ver citações de Nietzsche): aqueles que postulam um universo ideal, além das aparências empíricas e do nosso mundo fenomênico.

Aos olhos de Nietzsche, o que conta é, ao contrário, nosso mundo como plenitude vital. Os valores morais tradicionais também estão sujeitos ao “golpe de martelo” da crítica nietzschiana. Nietzsche está aqui, muito severo em relação ao cristianismo.

O ressentimento, ou seja, o sentimento de ressentimento e amargura de quem não consegue criar positivamente, deu origem aos valores morais, bons e maus.

O sofrimento e o ressentimento estão na origem da moralidade, assim como estão na origem da metafísica. Aqueles que não conseguem criar e afirmar algo verdadeiramente positivo (os escravos) vingam-se de sua impotência existencial elevando o negativo de suas vidas. Assim nasceu a moral ascética cristã, obra dos escravos.

4 Nietzsche e a Vontade de Poder:

Pelo niilismo ativo, destruindo os valores tradicionais para acessar novos valores, pelo imoralismo, uma doutrina que se coloca além do bem e do mal, podemos esperar encontrar o caminho da vida criativa e da Vontade de Poder.

Vontade de Poder: esta é uma expressão bastante usada, um termo onde proliferam grandes equívocos ou sofismas.

Não designaria pura e simplesmente a vontade ou o apetite de poder, o espírito de dominação ou de competição?

Isso seria concebê-lo ou entendê-lo de forma muito restritiva ou destrutiva, um impulso de dominação com várias facetas: um conjunto de impulsos essencialmente competitivos (no “medíocre”), mas também o próprio movimento de transcendência criativa (na alma nobre do “aristocrata” – noção tomada, em Nietzsche, no seu sentido essencialmente espiritual – isto é, do melhor!).

Pode significar luta pela vida, mas também plenitude espiritual e superabundância existencial. A Vontade de Poder é um termo ambíguo, uma noção ambivalente que não pode ser reduzida às suas formas ou manifestações mais superficiais ou triviais.

Na sua dimensão mais nobre, é uma força plástica e criativa.

Para compreender plenamente sua essência, é o corpo humano que deve ser tomado como guia, porque o corpo é sabedoria e razão; vamos defini-lo como dinamismo inteligente, a faculdade orgânica de compreender e pensar: todo o organismo pensa e é lícito falar de um pensamento corporal inconsciente.

Seguindo Schopenhauer, Nietzsche reabilita assim o Inconsciente, concebido como uma realidade psíquica que vai além da apreensão clara e transparente de si mesmo.

A consciência é menos rica que o corpo, que fornece, em sua sabedoria, um ponto de partida e um guia: permite apreender a Vontade de Poder, essa força vital destrutiva e criativa, essa vida em perpétuo crescimento.

5 Nietzsche e a Arte: Dionísio e a vida criativa

A autêntica Vontade de Potência, como afirmação e plenitude, revela, na sua própria superabundância criativa, o verdadeiro campo da vida e da transcendência. Entre as criações da vida está, antes de tudo, a Arte, sobre a qual é importante não se enganar.

Toda uma tradição identifica, de fato, a Arte com as obras de arte e com o campo das artes plásticas. Nietzsche, ao contrário, concebe a arte de uma forma muito mais global e dinâmica.

Contra “a arte das obras de arte” circunscrita a um domínio específico, delimitado e restrito, a Arte torna-se, em Nietzsche, uma invenção de formas harmoniosas, uma produção destinada a um embelezamento de toda a existência.

  • Esconde a feiura, humaniza ou dissimula tudo o que é feio. (Não confunda Arte e Belas Artes). O conjunto de materiais e signos criados por um artista e que manifestam um ideal de beleza designam apenas um apêndice dessa produção de formas que é a arte em geral, essa embriaguez da vida, essa vontade de existir através de formas harmoniosas.

O campo da vida criativa inclui a atividade artística, o trabalho autêntico e, em geral, tudo o que diz respeito à construção positiva de valores.

Assim, o trabalho real, moldando as coisas, conectado com alegria e prazer, difere profundamente do trabalho miserável para ganho.

Às potências da vida estão também ligados os autênticos valores morais, aqueles criados pelos melhores, os “mestres”, situados na corrente vital da Vontade de Potência.

O pensamento de Nietzsche é aristocrático, no sentido etimológico do termo.

  •  O rebanho vil se opõe à bela individualidade criativa.
  • Essa oposição espiritual entre o “aristocrata” e o “rebanho” comanda uma série de conceitos de Nietzsche.
  • Assim, na Genealogia da Moral, a moral aristocrática (esse ato criador, esta afirmação triunfal de valores, afirmação que se faz na alegria) está a mil léguas da moral dos escravos, ligada ao ressentimento que faz nascer os escravos e seus valores negativos.

O critério de “autenticidade” aparece sempre ligado, em Nietzsche, à afirmação e à potência criadora da vida.

É nesta perspectiva, de afirmação da potência criadora da vida, que devemos compreender o símbolo de Dionísio, que ocupa tal lugar em Nietzsche, desde “A Origem da Tragédia” (1871), até a “Vontade de Poder” (fragmentos póstumos).

Dionísio é, sim, um símbolo da vida, o ser mais transbordante da vida.

Deus da embriaguez, entre os gregos, ele encarna, no pensamento de Nietzsche, devir como incessante destruição e criação; Dionísio é sensualidade, gozo de uma força geradora e destruidora.

A palavra “dionisíaco” expressa essa grande (desencadeada) participação na exuberante corrente da vida. Quanto ao dionisismo, designa a identificação com o princípio do êxtase e da vida.

Pelo contrário, Apolo, deus da medida e do limite entre os gregos, refere-se, em Nietzsche, a tudo o que é claro, claro, distinto, limitado.

O desencadeamento “dionisíaco” opõe-se à serenidade “apolínea”, o apolinismo, concebido como contemplação de um mundo de imaginação e sonho.

6 Nietzsche e o sobre-humano:

Recuando as forças da reação, da simples negação, aquelas que estão ligadas ao “não”, superando-se para as da vida e da criação, o homem transcende-se para o Super-homem, para um tipo humano superior, livre de espírito e de coração.

O homem é, de fato, o fim da evolução? Ele não completou seu itinerário e apela à bela individualidade criativa.

O sobre-humano é o significado da terra, o próximo termo da evolução.

Aqui, novamente, qualquer má interpretação deve ser evitada: o “super-homem” de Nietzsche foi tristemente caricaturado, mas ele não tem nada a ver com a “besta loira” dos mitos germânicos.

A filosofia de Nietzsche é assim organizada em torno de alguns conceitos principais: o do Sobre-humano, o do Dionisíaco e, claro, o da Vontade de Poder.

Acrescentemos, por fim, o do Eterno Retorno (todo estado do universo retorna periodicamente). Nietzsche assim (como Lucretia ou Spinoza) traçou uma filosofia de alegria, criação e plenitude vital. Nietzsche celebrou a vida e apontou que o segredo para o maior prazer é viver intensamente e perigosamente.

Obras de Friedrich Nietzsche:

A Origem da Tragédia (1871).

Humano, Demasiado Humano (1878).

O viajante e sua sombra (1880).

Aurora (1880-1881).

A Gaia Ciência (1881-1882).

Assim Falou Zaratustra (1882-1885).

Além do Bem e do Mal (1886).

A Genealogia da Moral (1887).

Sem esquecer os fragmentos póstumos reunidos sob o título A Vontade de Poder (esse título não é do próprio Nietzsche).

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