O Príncipe de Maquiavel (Resumo da Obra)

O Príncipe: uma obra de realismo na Ciência Política

O Príncipe de Maquiavel está sujeito a inúmeros comentários e críticas. Não pretendemos revolucionar este exercício de comentário. Mas, voltando à essência do pensamento de Maquiavel, realizamos, abaixo, uma análise rápida desse texto essencial da filosofia política que inspirará todos os grandes estadistas, de Mitterrand a De Gaulle, passando por Churchill e Napoleão.

O Príncipe faz parte de um contexto histórico complicado, o da fragmentação política da Itália durante o Renascimento.

Os inúmeros reinos são objeto de ameaças de ataques externos (da França em particular). Maquiavel é um patriota que teme ver seu país desmantelado por potências rivais. Além disso, Maquiavel dedicou sua obra ao príncipe Médici (rei de Florença). Assim, o objetivo é assessorar os príncipes para a unificação da Itália. Seu método, portanto, pertence ao realismo político.

Lembremos também que em seu “Discurso da Primeira Década de Lívio”, Maquiavel buscou as razões da grandeza de Roma, que ele põe como modelo de sucesso político. Seu objetivo é, portanto, criar um manual para os príncipes.

Maquiavel e seu Príncipe

O príncipe maquiavélico deve ser dotado de virtudes morais e políticas (baseadas na astúcia e na força), deve dominar a arte da guerra, único objeto do poder. Toda paz é, portanto, uma paz armada. Um bom Príncipe manter-se-á se tiver VIRTU, no sentido de antecipação aos fenômenos e fatos, bem como PRUDÊNCIA, que é a arte de captar situações singulares. Sendo a fortuna um “rio impetuoso”, o Príncipe deve prevenir as dores do destino e agir para antecipar o futuro.

O príncipe deve sempre atrair a simpatia do povo e contar com os poderosos. Amado e temido ao mesmo tempo, o Príncipe pode ser cruel se a situação exigir, mas sempre se esconde e parece justo para as pessoas (diferença entre o ser do Príncipe e sua aparência). A razão de Estado prevalece sobre o respeito pela moralidade.

O trecho abaixo sintetiza bem a concepção do exercício do poder no pensador florentino:

“É sem dúvida muito louvável que os príncipes sejam fiéis a seus compromissos; mas entre aqueles de nosso tempo que foram vistos fazendo grandes coisas, poucos se orgulharam dessa fidelidade e tiveram escrúpulos em enganar aqueles que descansavam em sua lealdade. Então, você deve saber que existem duas maneiras de lutar, uma com leis, outra com força. O primeiro é próprio dos homens, o outro é comum a nós com os animais; mas quando as leis são impotentes, é necessário recorrer à força; um príncipe deve saber lutar com essas duas espécies de armas; é o que os antigos poetas sutilmente nos dão a entender na história alegórica da educação de Aquiles e de muitos outros príncipes da antiguidade, pelo centauro Quíron, que na dupla forma de homem e de animal ensina aos governantes que eles deve usar sucessivamente a arma própria de cada uma dessas duas espécies, pois uma sem a outra não poderia ter utilidade duradoura. Um príncipe, então, sendo obrigado a saber lutar como um animal, deve imitar a raposa e o leão, pois o leão não sabe proteger-se das armadilhas, e a raposa não consegue defender-se dos lobos. O príncipe, portanto, deve ser uma raposa para reconhecer as armadilhas e um leão para assustar os lobos.”

Maquiavel, guerra e paz em O Príncipe

Maquiavel descreve a política externa dos Estados como marcada pela desconfiança. Esta desconfiança é justificada pelo instinto de sobrevivência que todos os Estados devem desenvolver. Sendo o mundo ameaçador, Maquiavel defende uma concepção agressiva de política externa: atacar antes de ser atacado. Assim, a defesa de um estado justifica todos os meios: “uma pátria se defende ou pela ignomínia, ou pela glória, ou por qualquer outro meio” (citações de Maquiavel). Maquiavel retira a noção de violência de sua conotação moral. A violência serve para frustrar os planos da fortuna contra os homens.

O poder de um Estado é inseparável para Maquiavel de seu poderio militar. Na verdade, um país cuja defesa seria delegada corre grande perigo.

Para Maquiavel, a guerra é o meio externo de manter a paz, a paz um meio interno de manter o poder. Mas em nenhum momento a guerra é valorizada como tal. O príncipe deve ser um líder militar (leão) e um hábil líder político (raposa).

Maquiavel e o Cidadão Republicano

O cidadão deve valorizar a vida cívica ativa em detrimento da vida contemplativa (ao contrário de Aristóteles na Ética de Nicômaco). Habitado pelo desejo de glória e grandeza, o cidadão deve escapar da corrupção e agir pela comunidade. O cidadão deve ser um soldado preocupado em preservar o bem comum.

Conclusão sobre O Príncipe:

As lições de Maquiavel são importantes. Além da política descreve um mundo contingente, onde o lugar da vontade e da ação humana são decisivos. O homem, diante do caos, nunca está condenado, ele tem os meios para superar o destino e o acaso: sua liberdade.

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