Sartre: o homem está condenado a ser livre

Sartre e a filosofia da liberdade

A liberdade humana tem sido debatida entre os filósofos desde o advento da filosofia. No Ocidente, o paradigma religioso teísta influenciou profundamente a concepção de liberdade (Tomás de Aquino). No Oriente, os filósofos evoluindo fora do monoteísmo do Ocidente, desenvolveram explicações sobre o fato de serem livres em sua relação com a sociedade e com o mundo natural (ver a “Concepção do mundo” no Confucionismo, Zen Budismo e Madhyamika). Foi somente nos séculos XIX e XX que o problema da liberdade foi colocado de maneira radical.

É a recusa em pertencer a uma escola de pensamento, o repúdio a qualquer sistema de crenças e a ruptura com a filosofia tradicional, acadêmica, considerada muito distante da vida – que está no cerne do existencialismo.

“O homem está condenado a ser livre”, esta afirmação de Sartre, que está no cerne de sua principal obra filosófica “O Ser e o Nada” e de seu famoso discurso “O existencialismo é um humanismo”, diz respeito a todos os aspectos da existência humana: livre arbítrio e determinismo; valores morais, noção de Deus e intersubjetividade (relação com os outros).

Antes de detalhar a teoria da liberdade de Sartre, devemos retornar a dois dos princípios fundamentais de Sartre: “a existência precede a essência” e sua divisão do mundo em duas categorias distintas, “ser-em-si” e ser-para-si”, ou seja, os dois princípios fundadores de sua ontologia. Compreender esses dois conceitos é necessário para apreciar plenamente a profundidade de sua frase: “o homem está condenado a ser livre”.

Sartre usa a analogia de um artesão que cria um objeto utilitário como um abridor de cartas para mostrar que os objetos inconscientes têm uma essência integrada, fixa e definitiva. Essa essência determina sua vida e, portanto, eles não são livres para serem diferentes. Estão condenados a ser o que são e nada mais. Da mesma forma, se um ser humano é criado por Deus (um criador celestial), então, a essência do humano é determinada.

Essa concepção essencialista (o oposto filosófico do existencialismo) remonta a Leibniz. De acordo com Leibniz, “Deus determinou a essência de cada homem e então o deixou agir livremente de acordo com as exigências de sua essência”. Segundo Sartre, se Leibniz e os essencialistas estiverem certos, então os humanos são reduzidos a um “gesto original”:

“O homem é um ser cuja essência não pode ser afirmada, porque isso contradiz o homem e seu poder de transformar-se indefinidamente”. Para Sartre, porém, não existe um padrão pré-estabelecido para a natureza humana, “cada homem faz sua essência”. A separação operada por Sartre sobre existência e essência dá origem a uma ontologia diferenciada. Primeiro, o ser em si. Esse grupo de “coisas” (como pedras, árvores e cortadores de papel) tem as seguintes características: não são livres, não são responsáveis, têm uma essência determinada, fixa e completa. Ao contrário desses “objetos” não conscientes, existem seres para si mesmos. Esses “sujeitos” conscientes têm as seguintes características: livres, responsáveis ​​por si mesmos, sem essência determinada.

Sartre insiste no fato de que não apenas os humanos são sempre livres para escolher, mas que estão “condenados a serem livres”: é impossível para ele ser de outra forma.

Sartre define a liberdade como:

“O próprio ser-para-si que está ‘condenado a ser livre’”. Em outras palavras, o sucesso não é importante em comparação com a liberdade. Um objeto, sendo em si mesmo, é determinado por sua essência, uma árvore não é livre para escolher seu destino, deve viver sua vida de acordo com sua natureza. Você poderia dizer que uma árvore está “condenada a não ser livre”. Como os humanos não têm natureza ou essência intrínseca (segundo Sartre), porque nossa consciência é autorreflexiva, somos livres para determinar a nós mesmos. “O homem não é apenas livre – o homem é liberdade”. “Estamos sozinhos, sem desculpas. É isso que quero dizer quando digo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque ele não criou a si mesmo, e ainda assim a liberdade, e desde o momento em que ele é jogado neste mundo, ele é responsável por tudo o que faz”.

Sartre elimina, em um único gesto, Deus como figura paterna determinista e como consolo.

Pouquíssimas pessoas, segundo Sartre, estão dispostas a aceitar e assumir sua liberdade e, portanto, ser responsáveis ​​por si mesmas. Essa responsabilidade de autodeterminação é causa de angústia e desespero para a maioria das pessoas, as pessoas preferem poder projetar a responsabilidade de sua situação em alguém ou em outra coisa. A percepção de que “nosso destino está em nossas próprias mãos” significa que experimentamos uma sensação de “abandono”.

Sartre vê a “angústia” como uma experiência e não como um estado emocional provocado pela realização da total liberdade e responsabilidade, e quando escolho, escolho por mim e pelos outros, por todos.

O “abandono” é aquele que se experimenta depois que uma pessoa percebe que está totalmente no comando e não consegue encontrar nenhum “guia em sua natureza” (não existe) nem nas revelações de Deus (não existem) para como eles devem agir. As pessoas não são apenas responsáveis ​​pelo que fazem, elas também têm que “inventar” seu próprio código moral, para saber o que fazer.

O “desespero” ocorre em conjunto com o “abandono” e a “angústia” quando a pessoa percebe que qualquer escolha que faça no mundo é muito “passivamente hostil” às suas intenções (e sobrevivência).

Para Sartre, “não há desculpa” para fugir de sua liberdade. Agir de má-fé é tentar comportar-se como um “objeto” ou uma “coisa”, dar-se uma essência. Assim, a recusa da liberdade só pode ser concebida como uma tentativa de apreender-se como ser-em-si. Sartre explora essa ideia de autoengano em várias de suas obras literárias, “Entre Quatro Paredes” e “As Mãos Sujas”. Diante do mal, assumir sua liberdade equivale para Sartre a ser autêntico, ou seja, sem desculpas.

Ainda que estejamos essencialmente sozinhos e sem Deus, a liberdade, este peso terrível, torna o homem digno de ser homem. A liberdade que vem com o ser humano não é algo que escolhemos, é a nossa humanidade. Essa condenação à liberdade é o significado do existencialismo.

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