A Filosofia de Sigmund Freud

Freud, psiquiatra, filósofo e pai da psicanálise, explorou as profundezas do inconsciente, ainda pouco compreendido no final do século XIX e início do século XX. Ele concebeu o inconsciente como um sistema do aparelho psíquico, contendo representações reprimidas.

Freud e sua definição de psicanálise:

  1. Terapia

O que é a psicanálise? Não é um sistema filosófico.

Freud, médico psiquiatra, foi primeiro terapeuta e é nessa perspectiva prática que devemos definir a psicanálise, ou seja, como um método psicoterapêutico baseado na análise da transferência.

A psicanálise, na verdade, é um ato.

Não busca experimentar, mas modificar algo, e isso elucidando o sentido da transferência, ou seja, da projeção, na pessoa do terapeuta, de uma carga de energia afetiva e de sentimentos inicialmente experimentados pela criança em relação aos pais.

Essa transferência pode ser positiva e incluir elementos favoráveis ​​à análise, mas, também negativa (com elementos hostis).

Esta terapia por transferência visa essencialmente a cura das neuroses e afeições cuja origem psíquica e cujos sintomas expressam simbolicamente um conflito resultante da história do sujeito e da sua infância.

É no complexo de Édipo que se constitui, com seus derivados, o complexo central de cada neurose. Vamos defini-lo como uma disposição afetiva pela qual um ser humano se apega sexualmente a seu genitor do sexo oposto e nutre uma atitude de aversão em relação a seu genitor do mesmo sexo.

  1. O inconsciente

Ao definir a psicanálise como um método psicoterapêutico baseado na análise da transferência, ainda não identificamos seu conceito central, o de inconsciente.

E, de fato, a psicanálise é um método de investigação que traz à tona significados inconscientes.

O que é o inconsciente segundo Freud?

Deve ser entendido dinamicamente, não estaticamente.

Antes de Freud, muitos filósofos apontaram que parte de nossa psique escapa da consciência.

Freud, (e nisso está a novidade de sua abordagem) vê no inconsciente um sistema psíquico formado pelo que não pode atingir a consciência, na medida em que é produto da repressão, ou seja, de um processo psicológico de defesa do ego rejeitando impulsos e desejos.

Mas que impulsos exatamente?

► São aqueles que discordam da censura, isto é, autoridade inconsciente gerada pela educação e que proíbe o acesso à consciência.

Ao definir o inconsciente a partir do recalque, enfatizando que se trata de uma resistência (força significativa de um conflito e manutenção do estado mórbido) que impede que as lembranças cheguem à esfera consciente, Freud descreveu dinamicamente o que alguns, antes dele, trataram em um estado estático, fixo ou muito geral.

Consciente, inconsciente e pré-consciente são aspectos e momentos de um processo: ao lado do consciente e do inconsciente, Freud admite, de fato, o momento do pré-consciente.

Da parte do inconsciente que ora permanece inconsciente, ora torna-se consciente, ele afirma que é capaz de tornar-se consciente e dá-lhe o nome de pré-consciente.

Freud e o caminho do inconsciente – sonhos e atos falhos:

Mas de que maneira podemos esperar acessar esse inconsciente dinâmico que constitui o fundo de nossa psique?

Os conteúdos reprimidos manifestam-se por processos mórbidos e psicopatológicos (neuroses…) mas também por sonhos e atos falhos.

Por meio dessas diversas manifestações, o conteúdo inconsciente penetra, mascarado, até o consciente e torna-se possível, por meio de elementos aparentemente irracionais. Assim, é necessário interpretar o que parecia incoerente e detectar ali uma intenção e um sentido, decifrar esse mascarado, dando-lhe inteligibilidade.

O sonho, realização imaginária de um desejo durante o sono ou, produção psíquica dotada de sentido, é onde Freud distingue um conteúdo manifesto e um conteúdo latente. O primeiro designa a fachada por trás da qual se esconde o fato real. O segundo, um conjunto resultante de temas reprimidos e que preside o sonho desde as profundezas do inconsciente.

O processo pelo qual os pensamentos latentes são transformados em conteúdo manifesto é chamado de sonho.

Quanto à interpretação do sonho, ela é definida, em Freud, como a busca das ideias latentes e inconscientes do sonho, e isso pela mediação do conteúdo onírico manifesto.

Mas os atos falhos ​​também representam uma rota real para o inconsciente: Freud nomeia assim os inúmeros atos da vida cotidiana que erram seu objetivo e traem uma intenção inconsciente.

Assim é com esses deslizes, incluindo, pequenos acidentes ou, por exemplo, quebras de objetos que não são de forma alguma desprovidos de importância e que possuem um sentido, um significado interno.

Freud aparece como um pensador que tentou inscrever o sentido, a inteligibilidade, onde, na aparência, aparecem a incoerência e a desordem.

Assim como o sonho e no ato falho, o sintoma neurótico é analisado como uma formação que se atualiza no lugar de algo que não poderia se manifestar de outra forma. A neurose não é um simples acidente nem uma inconsistência, mas a expressão de um processo.

Freud, a natureza da psique e a teoria dos instintos:

A partir de 1920, o freudismo experimentou novos desenvolvimentos. Freud introduziu, de fato, em sua pesquisa, conceitos norteadores que levaram a uma outra teoria da personalidade e das pulsões humanas.

No que diz respeito à estrutura mental do aparelho psíquico, Freud distingue, a partir de 1920, o Id, o Ego e o Superego.

O aparelho psíquico, o arranjo estrutural da vida interior do indivíduo, inicialmente concebido por Freud como consistindo do consciente, do pré-consciente e do inconsciente, é agora descrito da seguinte forma:

► O mais antigo dos “lugares” psíquicos leva o nome disso, uma espécie de reservatório de todos os impulsos inconscientes que nos impulsionam.

► Seu conteúdo inclui tudo o que o ser traz ao nascer.

► O Ego designa a parte da personalidade que assegura as funções conscientes: “o homem não é dono de sua própria casa” (citações de Freud).

► Finalmente, o Superego representa uma internalização das proibições parentais, um poder “proibidor” que o Ego é obrigado a levar em conta.

O ser humano sofre, de fato, durante sua infância, uma longa dependência que expressa o Superego.

Freud não apenas elabora essa nova teoria da personalidade, mas, a partir desse mesmo período, desenvolve a concepção da dualidade das pulsões ou instintos, das forças que atuam por trás das necessidades do Id e representam, na psique, demandas somáticas.

As pulsões designam, em Freud, processos dinâmicos oriundos do inconsciente e que consistem em um empurrão que faz o organismo tender a um objetivo.

Freud, a partir de 1920, admite a existência de dois instintos fundamentais: os instintos de morte e os instintos de vida (a parte mais polêmica de sua obra).

Os primeiros visam trazer tudo o que vive de volta ao estado inorgânico, enquanto os segundos tendem a estabelecer a unidade através da força de Eros, do Amor.

Assim, uma oposição Eros/Tanatos (Amor/Morte) agora engaja a teoria psicanalítica em uma nova direção, desviando-se do aparato teórico anterior.

A libido (isto é, a energia do impulso sexual) é capaz, pensa Freud, de neutralizar as forças de desintegração e destruição tão poderosas, que este clínico acabara de ver em ação durante a guerra de 1914-1918.

É a agressividade (tendência à destruição do entorno e do meio ambiente) como ameaça à civilização, ou seja, a totalidade das obras e das organizações nos afastando do estado animal de nossos ancestrais, que prendeu a atenção de Freud desde aquele tempo e que ele esclareceu poderosamente.

Conclusão:

A psicanálise nos mostrou que o homem não é dono de seu próprio mundo interior: os processos psíquicos inconscientes nos escapam. Além disso, poderosas forças da morte estão trabalhando dentro de nós. Por meio dessas análises, o freudismo renovou profundamente a concepção do homem e de sua psique.

Principais obras de Freud:

– A Interpretação dos Sonhos (1899)

– Psicopatologia da vida cotidiana (1904)

– Totem e tabu (1913)

– Introdução à psicanálise (1917)

– Além do Princípio do Prazer (1920)

– O Mal-estar na civilização (1929)

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