A Filosofia de Platão: Uma Filosofia da Razão

Platão é um filósofo grego conhecido e reconhecido por ter deixado uma considerável obra filosófica, na forma de diálogos. O mundo sensível está, aos olhos de Platão, subordinado às Essências ou Ideias, formas inteligíveis, modelos de todas as coisas, que salvam os fenômenos e lhes dão sentido.

No topo das Essências está a ideia do Bem, que as supera em dignidade e poder: esse princípio supremo se funde com o divino.

Índice

1 Diálogo no centro de sua concepção de filosofia

2 Platão, Dialética, Essências, o Bem

3 Platão, Amor e Beleza

4 Sócrates, Reminiscência e Maiêutica

5 Platão, Moralidade e Política

6 Conclusão do curso sobre Platão 

7 Obras de Platão

1 Diálogo no centro de sua concepção de filosofia

Platão muitas vezes apresentou sua doutrina de uma forma particular, a do diálogo, na qual Sócrates ocupava um lugar mais do que predominante. Com efeito, Sócrates foi o mestre do filósofo, encarnou, de certo modo, o “líder do jogo”, o “mosca”, o parteiro das almas, o impedidor de andar em círculos.

Ao escrever sua obra de maneira dialógica, Platão destacou, assim, uma importante dimensão inerente à busca da verdade: o conhecimento só pode ser adquirido por dois (ou mais) e essa mediação do diálogo é a única capaz de superar opiniões particulares para nos dar acesso ao universal.

O que é, de fato, um diálogo?

– Quando dois indivíduos se encontram frente a frente e dois tipos de crenças se chocam, em um debate organizado, essa discussão é chamada de diálogo.

– Mas, o próprio diálogo é um aspecto rudimentar da dialética que agora deve ser definido e descrito.

2 Platão, Dialética, Essências, o Bem

A dialética designa uma aproximação e um itinerário, uma ascensão gradual rumo à verdade, longe de ilusões e crenças de ordem puramente sensível ou imaginativa.

– O pensamento surge assim da opinião (a “doxa”).

A probabilidade é:

► Uma declaração não justificada por raciocínio rigoroso;

► Uma mistura de verdade e erro;

►  Dois intermediários entre o nada total e o que é… até um conhecimento de ordem inteligível e justificado pela razão.

A primeira etapa do conhecimento racional corresponde à apreensão dos dados matemáticos, mas trata-se de alcançar, mesmo além dessas verdades matemáticas, o termo último da dialética: as Ideias ou Essências e o Bem.

Aos olhos de Platão, o mundo sensível é, de fato, apenas aparência em relação às próprias ideias, objetos do pensamento puro, modelos inteligíveis de todas as coisas, não percebidos pelos sentidos, mas, no entanto, muito mais reais e verdadeiros do que os objetos empíricos como tais.

– Assim a Ideia de mesa é a mesa ideal, tal como a concebemos por pensamento, modelo ou paradigma que as mesas concretas imitam e reproduzem.

– Em suma, a Ideia ou a Essência (dois termos aqui com significado semelhante) são “coisas” no seu estado mais puro, modelos de pensamento e reflexão.

► É a dialética, um itinerário regulado e metódico, que, de conceitos em conceitos e de propostas em propostas, permite alcançar tanto essas Essências ideais quanto o Bem, termo último da abordagem racional.

► O Bem designa assim, aos olhos de Platão, o Divino: que não é, a rigor, nem uma noção nem um conceito, mas um princípio supremo, superior à existência e à essência, superando-as de longe em dignidade e poder.

Essa ideia do Bem, causa de tudo que é certo e belo, comunica sua verdade e sua vida a todos os objetos cognoscíveis.

3 Platão, Amor e Beleza

O itinerário rumo às Essências só pode ser compreendido através da dialética do Amor, que Platão nos descreveu tão bem em “O Banquete”.

– Com efeito, o impulso amoroso em direção ao Belo representa, aos olhos do filósofo, um poderoso instrumento de acesso à verdade.

– Intelectualizado e disciplinado, o Amor funde-se com a Dialética, da qual encarna o dinamismo e a vida.

O que é, de fato, o Amor?

– É uma falta, uma escassez, uma pobreza que assinala a nossa incompletude e o nosso vazio, um impulso para o que não temos, uma aspiração ao próprio Belo.

– Graças a ele, podemos, das belezas corporais e sensíveis, passar à Beleza da alma, depois à das ocupações e das leis.

Finalmente, no estágio supremo, é a própria Ideia de Beleza, em sua pureza e independência, que o filósofo poderá alcançar.

É difícil definir essa ideia de Belo.

– Formando uma unidade em si mesma, escapando da geração e da corrupção, caracteriza-se pela pureza absoluta, transcendência em relação ao sensível e outras “bobagens mortais”…

– O Belo é a derradeira desencarnação, o brilho e o esplendor do que absolutamente transcende o empírico e o concreto.

4 Sócrates, Reminiscência e Maiêutica

A dialética das Ideias e a teoria do Amor levam a falar de um idealismo platônico (no sentido forte do termo idealismo) como uma doutrina que atribui às Ideias ou Essências uma existência em si mesmas, independência do espírito e das coisas individuais (Obs.: a palavra “idealismo” não é do próprio Platão).

Mas pode-se perguntar que argumentos permitem a Platão elaborar essa teoria “idealista” das Essências.

– Parece que a maiêutica e a reminiscência constituem dois grandes elementos que justificam esta elaboração e esta doutrina.

A Maiêutica:

– Designa esta arte de dar à luz a espíritos:

► Arte pela qual Sócrates levou seus interlocutores a se descobrirem, a tomarem consciência de sua riqueza implícita.

► Assim, no diálogo de Ménon, o escravinho ignorante descobre-se, pelas virtudes de sua própria inteligência, como construir um quadrado que seja o dobro de um dado quadrado.

– Se cada um de nós pode assim, pelo diálogo e pela maiêutica, nascer para si mesmo e recapturar verdades (ocultas), não será porque então se lembra de uma verdade já contemplada?

► Tal é a doutrina da Reminiscência.

A Reminiscência:

– Em nossas existências anteriores, contemplamos as Ideias, que constituem, portanto, apenas memórias.

– Aprender é lembrar a verdade uma vez vista.

– Todo o exercício filosófico visa dominar e organizar esse conteúdo secreto, oculto, fruto de uma contemplação distante.

5 Platão, Moralidade e Política

Assim, a resposta ao problema especulativo e a constituição de uma dialética baseada na reminiscência também permite a Platão resolver o problema moral e político.

Os sofistas, esses mestres da retórica e da eloquência criticados por Platão que os via como meros produtores de mentiras, falsos prestígios e ilusões (sendo a sofística definida por ele como mercantilização do discurso) haviam abalado a crença em um Absoluto permitindo que a moralidade seja construída:

– A verdade, pensavam eles, não passa de subjetividade.

– Sua doutrina relativista muitas vezes levava ao puro imoralismo.

Com Platão, a moralidade torna-se novamente possível, ao contrário.

– Quando, depois de ter contemplado as Ideias, o filósofo desce à “caverna”, está agora em condições de construir uma moral e uma política.

– A famosa Alegoria da Caverna designa, de fato, esta história pela qual Platão pinta nossa condição:

► Os homens são como prisioneiros que tomam as sombras projetadas à sua frente na parede da caverna pela verdade.

► O prisioneiro que se desprende e que sai simboliza o filósofo acessando as Essências.

A virtude, nesta perspectiva, designa a participação nas Essências e no conhecimento verdadeiro, uma ciência do Bem e do Mal inseparável da dialética.

Em Platão, e geralmente em todo o pensamento helênico, a virtude e a moral são, de fato, da ordem do conhecimento.

– Ninguém é mau de propósito.

– Ser corajoso é possuir a ciência do que é formidável.

– Ser justo é conhecer a harmonia de nossas forças interiores.

– A justiça (individual), portanto, representa conhecimento justo. Na alma justa, a parte racional (o espírito) sabe e comanda, dominando:

► O desejo selvagem e irrefletido (concupiscência);

► A raiva, uma parte impetuosa que às vezes pode se tornar aliada da razão.

– A justiça designa, nesta perspectiva, a virtude que assegura a sua função a cada parte da alma.

No Estado, a justiça representa harmonia e equilíbrio:

– Artesãos e vários trabalhadores obedecem.

– Os guerreiros defendem a cidade.

– Os magistrados comandam essas duas classes subordinadas.

A justiça individual representa o equilíbrio de uma alma sadia onde cada parte desempenha seu papel e obedece a sua função. A justiça política, por sua vez, designa o equilíbrio da cidade onde o “filósofo-magistrado” comanda:

– Cada classe executa sua própria função.

– No topo da hierarquia está aquele que “sabe”, que contemplou as Essências ou o Bem: o Filósofo-Rei. Assim, para alcançar a justiça na cidade, os reis devem se tornar filósofos, ou os filósofos devem se tornar reis.

Esta é a filosofia que tanto marcou a reflexão ocidental, tanto na análise do amor e do desejo quanto na da dialética especulativa.

6 Conclusão do curso sobre Platão 

Platão, falecido há mais de 23 séculos, traçou caminhos que continuam a fascinar toda a nossa civilização e cultura.

Nesse caminho, ele nos conduz da opinião (conhecimento inferior, faculdade intermediária que apreende as coisas que flutuam entre o nada e o ser absoluto), à ciência (conhecimento racional que nos permite alcançar a essência da verdade): itinerário que ainda assombra nosso tempo e ao qual muitos pensadores e estudiosos contemporâneos ainda se referem.

Marcos importantes Platão
Nascimento – Morte -428 / -348
Grandes obras Diálogos da Juventude: Fedro, Crátilo, Menon, Fédon, A República, O Banquete

Diálogos de transição: Parmênides, Teeteto

Diálogos tardios: Leis, Filebo, Sofista, Política, Timeu, Crítias.

Conceitos principais Justiça, Política, Verdade, Alma, Sabedoria, Bom, Maiêutica, Ignorância
Influenciado por Sócrates e pré-socráticos
Inspiração de Todos os filósofos, mas retemos Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Nietzsche, Hegel

7 Obras de Platão

– Diálogos juvenis:

Hípias Maior

Protágoras

Górgias

– Diálogos da maturidade:

Fédon

Banquete

Fedro

A República

– Diálogos da velhice:

Parmênides

Teeteto

Sofista

Política

Filebe

As Leis

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